“Ela me ensinou a tocar piano. E me ensinou o significado de perder alguém.” (trecho do filme O Curioso caso de Benjamin Button).
Nesses meus 24 anos passei por algumas experiências de perda. Quando eu tinha 14 anos, o meu avô Jessé morreu de infarto fulminante. Eu lembro exatamente onde estava naquele dia de agosto: na casa da minha tia celebrando os alguns anos de casamento de um primo. Lembro que disse um “tá, to indo” assim meio aérea, meio desnorteada. Meio que apaguei um pouco da memória os acontecimentos daquele dia e do dia anterior, mas lembro da minha avó ainda achando que ele estava vivo quando tiraram ele de casa, do desespero do meu pai e da poltrona dele vazia em frente à tv. Meu avô tinha os cabelos mais brancos que já vi e todos os dias eu sentava ao lado dele para ver todas as Marias do SBT (do bairro, mercedes, marimar)... ele adorava a Thalia. Me doeu muito saber que não mais o veria lendo a Bíblia pela manhã com uma lupa, que não o veria conversando com a Lora logo depois, que não ouviria mais ele implicando com minha avó na hora do almoço, que não mais o abraçaria antes de ir pra casa.
No ano seguinte o meu outro avô morreu. Vovô Mundinho, o pai de minha mãe. Ele tinha câncer de próstata, foi tratado, mas voltou depois com toda força. Quando ele ficou doente, todos os meus primos foram visitá-lo enquanto ainda estava vivo e eu e minha irmã fomos as únicas a não ir porque minha mãe tinha adoecido e não permitiu. No dia seguinte, sabendo da piora dele, minha mãe foi para Maués, onde ele morava, para vê-lo só que tarde demais. Ele já havia morrido quando chegou. Depois disso foi tudo muito rápido e confuso.
O velório e enterro foi realizado em Itacoatiara então havia as 4 horas de viagem até lá. Foram as 4 horas mais longas da minha vida vendo minha prima ao meu lado chorando e tendo que aguentar a dor engatada no peito. Eu ainda não acreditava, eu acho. Depois teve a espera lá até o corpo chegar. Foram mais de 24 horas sem dormir, andando pela casa, vendo as tias e primos um atrás do outro. Cada encontro era um rio de lágrimas. Cada vez que eu olhava mais eu pensava que não queria estar ali, que eu preferia não ter ido. Foi então que o dia amanheceu e sabíamos que a cada hora que passava se aproximava o tempo de ir para a igreja velar o corpo. Eu fui a última da família a entrar na igreja tanto era o meu desespero de vê-lo ali, desfigurado, sem vida. Não consegui. Sentei na ponta do banco, cobri o rosto com o chapéu que tinha e chorei. Chorei todas as lágrimas que eu tinha e as que eu não tinha.
Nunca mais eu veria o meu avô que dava boa noite para o Sid Moreira, que plantava banana, que fazia nossos brinquedos de madeira, que nunca mais ouviria ele reclamar quando falávamos mais alto, que ele nunca mais conversaria em inglês comigo. Eu me recusei a vê-lo deitado naquela caixa de madeira. Escolhi lembrar da última vez que o vira em vida, foi quando eu comi a primeira melancia que ele tinha plantado. Ficamos ali, no meio do sítio, só eu, ele e um primo saboreando.
No entanto, o que a gente aprende com a morte não é que dói quando perdemos alguém. Dói... Mas a verdadeira dor, aquela que te quebra mais ainda o coração já dilacerado, só vem depois quando a gente percebe que vai entrar em casa e a cadeira em que ele sentava vai estar vazia, que a cama vai estar sempre arrumada, que você faz de tudo pra esquecer a data de aniversário, o cheiro único da pele, o sorriso, o som da voz. Aos poucos você percebe como a casa vai ficando silenciosa, como a vida vai ficando silenciosa e que, aquela pessoa de que às vezes você reclamava, faz mais falta pra você do que imaginava.
Ainda lembro da minha avó paterna, mulher do meu avô Jessé, arrumando todas as coisas dele e mandando embora. “Ele morreu, não precisa mais”, disse ela e colocando uma foto dos dois na penteadeira dizendo que era a única coisa que bastava guardar.
Ainda lembro da minha avó materna, mulher do meu avô Mundinho, relutando para dar as roupas dele. Escolhendo algumas para guardar e que ainda tem até hoje. Lembro ainda dos 365 dias que ela só usou preto por estar de luto e do broche de flor preta que ela usa até hoje por ainda estar em luto.
A falta dor pra cada um que perde alguém seja ele um ser humano ou um animal, que na maioria das vezes é até mais que um ser humano, é a mesma. Pode até ser em intensidades diferentes, mas não deixa de ser DOR, não deixa de doer. Mas a falta que aquela pessoa vai fazer na vida de cada um é que é diferente. Eu perdi um avô, mas seus filhos perderam um pai e suas esposas, um marido. Eu não temo envelhecer. O que me assusta é saber que, a cada dia que passa em minha vida, que quanto mais envelheço um outro alguém que amo está cada vez mais perto da morte. E só de saber que passarei por toda essa dor novamente, que ainda tenho duas avós idosas, minha alma chora. Então eu passo o máximo de tempo possível por perto dos que amo pra quando o dia chegar eu saberei que fiz de tudo pra que soubessem que os amei cada minuto.
No fim, a gente acha que com o tempo, a dor passa. Não, ela não passa. Ela nunca passa. Ela se esconde em algum lugar dentro de você, você se acostuma a ela, você lida com ela mas realmente passar... ela não passa.
Então, meu amigo Marcos e minha amiga Wilsa, saibam que compartilho da dor de vocês nesse momento tão doloroso e tudo o que posso dizer é: sejam fortes por aqueles que são mais fracos e chorem para que suportem o dia que virá. Esse sim será o mais árduo processo.
"Todas as coisas tem o seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o tempo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer e tempo de morrer. Há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar e tempo de sarar. Há tempo de destruir e de edificar. Há tempo de chorar e tempo de rir. Há tempo de se afligir e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras e tempo de as ajuntar. Há tempo de dar abraços e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir e tempo de perder. Há tempo de guardar e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar e tempo de coser. Há tempo de calar e tempo de falar. Há tempo de amor e tempo de ódio. Há tempo de guerra e tempo de paz." Eclesiastes capítulo 3, v. 1-8

