domingo, 7 de dezembro de 2008

Violência em dobro


Ao voltar para casa de ônibus uma noite dessas, ouvi relato de duas situações sobre violência.

A primeira foi um senhor que contou uma história sobre sua infância para o amigo que estava ao seu lado. Como estava naqueles ônibus alternativos, ou seja, minúsculos, não pude deixar de ouvir, ainda mais porque a lembrança tinha vindo à tona por conta do que eu segurava em minhas mãos.

Estava eu sentada lendo uma revistinha da Turma da Mônica, a nova versão em que eles viraram adolescentes, e sim, eu ainda gosto da turminha do bairro do limoeiro,
quando o senhor citado acima virou para mim e perguntou:

"É a Mônica e o Cebolinha?"
"É sim", respondi.
"Mas eles estão diferentes".
"É que eles cresceram".

Então ele virou para o amigo sentado ao seu lado e começou a contar o que aconteceu com ele quando era criança. “Eu adorava ler gibis da turma da mônica. Não tinha muitos, mas os poucos que eu tinha eu lia e relia. Mas eu não gostava de estudar muito e não passei na escola. Minha mãe, para me castigar, pegou todas as minhas revistinhas e botou fogo nelas. Eu fiquei com tanta raiva que desisti de estudar naquele dia e parei de ler revista em quadrinhos”.

Eu, como uma ávida leitora e colecionadora de quadrinhos, não acreditava no que ele havia acabado de contar. Se minha mãe tivesse feito comigo o que a dele fez não sei o que faria. Meus pais nunca me proibiram de ler e nem reclamavam por eu ler quadrinhos, sem falar que me esforcei muito para comprar tudo o que tenho hoje. Mas tanto a mãe deste cidadão quanto ele mesmo erraram em suas atitudes. Não é destruindo algo de grande estima para alguém que vai ajudá-lo a se 'endireitar'. Ela destruiu algo que, na verdade, poderia ajudá-lo a se esforçar mais um pouco e ele, por outro lado, se vingou da forma mais estúpida possível tirando de si algo que só faria bem: a leitura. Pelo visto não conseguiu aprender nada com as revistas.

O ônibus chegou no meu ponto. Desci para ir para casa. Atravessar o TVLândia Mall às 19h30, um presságio de chuva, o local escuro, vários marmanjos trabalhando e nenhuma alma viva para descer o caminho comigo. Respirei fundo e apressei o passo sem pensar em nada, sem olhar para o lado e sem parecer com medo. Porque eu morro de medo de lugares escuros, molhados e estranhos. Logo saí sã e salva daquele furdunço empoeirado, a rinite coçando na ponta do nariz. Luz, que maravilha! Passei da ponte e respirei aliviada, mas ainda faltava um bom pedaço de estrada para chegar quando vi uma moça que às vezes lancha lá em casa (meu pai tem uma lanchonete). Íamos para o mesmo caminho e meio que “peguei” carona com ela.

Conversa vai, conversa vem, passamos em frente ao Parque do Idoso e vimos três curumins que não beiravam os 7 anos, correndo e pulando a cerca para sair do Parque, em vez de usarem o portão. Vendo aquilo, virou para mim e disse:

"Se fosse meu filho levaria uma boa surra".

Fiquei na minha, eu não sou adepta de surras, tapas, socos ou qualquer outro tipo de castigo em que o ser humano, no caso a criança, tenha que sofrer humilhações e espancamentos. Há outros tipos de mais eficaz de castigos e demonstrações de respeito.

Ante ao meu silêncio, ela continuou:

"Meu filho tem cinco anos, mas apanha como gente grande se fizer mal-criação. Fica de castigo de joelho em cima do milho e do arroz. Assim como minha mãe fazia comigo e se não se ajeitar vai levar surra de galho de goiabeira".

Bem, eu não sabia o que dizer. Tudo o que eu pensava era: tá maluca de bater numa criança porque foi desobediente? Ensina a te obedecer, mas não batendo.Cresci vendo minha avó batendo em meus primos com chinelo, galho de goiabeira, mangueira de borracha e nenhum deles se tornou uma criança mais "quieta". Na verdade, a maioria hoje bate em seus próprios filhos na errônea tentativa de educá-los, como se não lembrassem que quando criança passaram pelo mesmo. E olha que todos tiveram uma ótima educação escolar, caso a desculpa seja que nossos avós não tinham educação e outras coisas mais. Virei para ela e disse:

"Engraçado, minha mãe nunca precisou me bater. Ela dizia e estava dito. Acabou-se a história. Eu acho errado bater em criança porque, na verdade, ela não tem culpa do que faz. Os pais devem ensinar o que é certo e errado para que sigam e se não seguirem, castiga, tira o video-game, não deixa andar de bicicleta, mas bater eu acho muito ruim porque eles não têm mecanismos de defesa, são pequenos".
Ela olhou pra mim calada e falou:

"É, tu é bem calminha mesmo."

Espero ao menos que ela pense um pouco em casa.E foi o fim. Cada um para o seu lado.
Enquanto subia a rua de casa ia pensando: sou calma sim, não chamo palavrão, não crio confusões, não fumo, não bebo, não falo alto. Mas respeito pai, mãe e os mais velhos, já fui rueira, já briguei na rua, já corri soltando papagaio, quebrei a boca andando de skate, acabei com joelho andando de patins, fugi da escola no último dia de aula e quase fui pega, comecei a namorar muito cedo, já experimentei cerveja e não gostei, já provei caipirinha e também não gostei, já me ofereceram cigarro e maconha e eu disse 'não, muito obrigada', sem falar que odeio e sou alérgica à fumaça de cigarros, tenho sim meus dias de fúria, falo um F*ck quando é necessário, leio muito, perdôo, peço desculpas e amo.

Acabou-se a história.

Nenhum comentário: