quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Saudades


Hoje senti saudades de Maués.
Senti saudades da minha avó e meus tios que lá moram.
Senti saudades do cheiro do café que vinha da cozinha, logo cedo.
Saudades de andar pela plantação de jambu e ir comendo as florzinhas fazendo a língua ficar dormente.
Senti saudades de estar deitada na rede na varanda de casa, a brisa fria indo e vindo, o céu bastante estrelado e visível e meu tio cantarolando suas músicas com o violão na mão e a voz rouca.

"Casinha de palha, onde o caboclo mora.
Tem sempre comida, servida na hora.
Casinha feita de palha, ao qual o homem quer bem.
Tem sempre paz e amor que em muita casa não tem"

Maués é o meu paraíso particular... espero poder voltar logo.

Lembrando da Infância


Tenho um tio que, quando eu e meus primos ainda éramos criança, chegava com a gente e dizia: Vou cantar (isso mesmo, não é contar) para vocês uma música que conta a história dos mistérios da vida. Prestem atenção que só cantarei uma vez.
E começava:

Vinha no rio uma pedra boiando
Em cima da pedra três navegando.
Um era cego e nada enxergava
O outro era sem braço que o trem cortou
E o terceiro, era o mais esculachado
Pois estava nuzinho como Deus criou.
Foi então que o cego abriu o berreiro
Olhando pra água um tostão avistou
E ouvindo aquilo o que era aleijado
Passou a mão no fundo e o tostão apanhou.
E o que estava nu tendo o tostão tomado
Mais que ligeiro no bolso guardou.

Bem, meu tio cantava essa música apenas uma vez a cada visita nossa, ou seja, umas duas vezes por ano e quando ele estava de bom humor. Eu vivia pedindo para ele cantar para mim porque eu adorava a musiquinha e era doida para aprender. Então eu cresci e ele parou de cantar para mim e eu não consegui aprender a música inteira, apenas esse pequeno pedaço aí em cima.

E a nova geração de sobrinhos (no caso meus primos mais novos) não conhecem a música e quando ele cantou uma vez não se interessaram muito.

É a new generation...

Não sei se eu que cresci muito rápido ou eles é que não sabem aproveitar uma boa história.

sábado, 18 de outubro de 2008

Uma conversa para um bom entendimento

Antes de ir fotografar em um evento hoje, estava fazendo hora na praça São Sebastião, sentada na fonte, fotografando o palhaço que carregava algodão-doce quando apareceu um homem com um turbante e junto com eles havia dois garotos. O maior tinha cabelos escuros e bem curtos, o outro, que parecia ser mais novo, era mais claro, os cabelos loiros e também possuía um turbante que o escondia quase todo.
O pai e o menor pareciam ser de outro lugar, talvez algum desses países do Oriente ou descendentes de tal. Ele, o pai, tinha a voz grossa e carregava um brinquedo de fazer bolhas de sabão que pertencia a um dos filhos.

Os dois garotos tinham, cada um, um barco inflável. Subiram correndo as escadas da fonte pensando que ali havia água. Não havia. Mas tal detalhe não foi suficiente para impedi-los de brincar. Apenas imaginaram a água e começaram a correr um atrás do outro imitando o som de barcos.

O pai sentou e ficou vigiando a brincadeira dos dois. Percebia-se que o menor era mais agitado que o outro, falava mais alto enquanto o outro sempre mantinha a voz calma. Começou então a querer brincar de um modo mais violento, batendo os barquinhos um no outro. O mais velho não gostou e reclamou para o pai que virou para o outro e pediu que parasse.

Como ele não gostara da repreenda do pai, largou o barco e passou a brincar com o outro brinquedo, o das bolinhas de sabão. Brincou até acabar e reclamou quando acabou. Logo esqueceu e chamou o irmão para voltar a brincar com os barcos, correndo.
Eu fiquei ali apenas olhando aqueles três. Então o pai virou para mim e falou: eles são irmãos, mas de mães diferentes. Acabaram de se conhecer.
Eu apenas balancei a cabeça.

Logo o mais novo se afastou pois o outro começou a reclamar da brincadeira. Como ele estava longe, o pai chegou perto e se abaixando falou: ele é mais novo, você não pode bater nele e ele nunca teve um irmão para brincar com ele.

“Mas ele gosta de brincar muito rápido”, ele reclamava.
“Eu sei mas você pode ensinar a ele a brincar devagar”.
“Mas ele ganha presente também?”, perguntou curioso.
“Ganha”, o pai respondeu.
“Mas ele ganha muito?”
“Não, só quando ele merece”, respondeu o pai.
O filho ainda tentou argumentar mas o pai, sem levantar a voz, apenas disse:
“Vocês são irmãos. Têm que aprender a conviver um com o outro”.

Ele chamou o outro filho para irem embora. Eu aproveitei e guardei a máquina, chamei minha irmã para irmos também. Estava tranqüila porque ele era um bom pai. Qualquer outro teria se exaltado mas ele teve a lucidez de explicar ao filho o certo e o errado. Lembrei que minha mãe nos criou assim, a mim e minha irmã. Somos irmãs, as coisas iriam ser diferentes a partir do momento em que ela nasceu.

E eu sabia disso desde quando soube de sua existência. A gente diverge, a gente bagunça, brinca, conversa ou não conversa, reclama. Mas somos irmãs e seremos sempre, não importa o que aconteça.

domingo, 12 de outubro de 2008

12 anos sem Legião


Eu tinha exatamente 12 anos quando Renato Russo morreu, no dia 11 de outubro de 96. Nessa época eu já conhecia Legião Urbana, graças aos meus primos adolescentes. Lembro direitinho a primeira música deles que aprendi: Faroeste Caboclo.

Admirava-me a idéia de alguém escrever uma história em forma de música, sem falar o desafio de decorar uma letra tão grande. Foi só o começo para aprender as outras. Minha vizinha adorava e eu passava horas na casa dela escutando Índios, Eduardo e Mônica, Sete cidades, Angra dos Reis, Tempo perdido e tantas outras que recheavam nossas tardes de domingo deitadas no chão gelado do quarto com o rádio expelindo poesia por suas caixas.

Lembro que fiquei triste quando ele morreu. Sabia que, mesmo na minha cabeça de menina de 12 anos que não sabia nada ainda, o mundo havia ficado mais triste, mais pobre de música, menos interessante. Não importava o porquê de sua morte, ele havia ido embora e não voltaria nunca mais.

Viva Legião que influenciou e ainda influencia a tantos e viva Renato que dizia o que queria sem medo nenhum e lutava por isso.

Deixo aqui a música Sete Cidades, uma das que mais gosto entre tantas outras.

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade
Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu
Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo
Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu
Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe

Um sábado diferente

Fui ao aeroclube ontem para fotografar uma festinha que foi preparada para as crianças do Lar Batista Janell Doyle. Brincadeiras, entrega de presentes para cada uma, lanche e um show de pára-quedismo.

Até aí tudo bem. Sempre achei que eu fosse forte para situações como essa. Ledo engano. Vi que até eu não me conheço.

As crianças eram maravilhosas. Claro que tinha as travessas, as calminhas, as introspectivas, as cuidadosas que tomavam conta de outras crianças. E eu ali, no meio delas, brincando, tirando foto. Até pulei na piscina de bolinhas, ajudei a andar de perna-de-pau, a fiz sentar para comer.

Mas, em meio a tudo isso, mantinha a minha mente ocupada com qualquer outra coisa que não fosse a condição daquelas crianças. Ali elas estavam felizes, afinal era uma festa para elas, mas no fundo, sabia que, se elas tivessem o poder de escolher não escolheriam estar ali.

Cada vez que esse pensamento me vinha a mente tentava pensar em outra coisa. Afastava-me, conversava, ia fotografar. Até que chegou a hora da entrega dos presentes. Comecei a ficar nervosa. Se alguma chorasse eu choraria junto.

No entanto, algo mais forte que o choro delas aconteceu: o agradecimento. Todas enfileiradas, os maiores atrás, os menores na frente e começaram a cantar uma musiquinha de agradecimento. Todas juntas. Comecei a ficar nervosa e logo as lágrimas me vieram aos olhos. Continuei resistindo, segurando.

E então elas deram as mãos e eu me levantei, me atraquei na Aline (amiga do trabalho com quem fui junto) e chorei. Chorei até não poder mais.

Chorei por saber que elas estavam ali pedindo silenciosamente para que alguém as levasse junto e lhe desse amor e carinho, chorei porque sei que nunca chegarei perto do sofrimento delas, que nunca poderei me colocar em seu lugar, pois tenho uma mãe sempre ao meu lado, chorei pelos menores que não entendem muito o porquê de estarem ali a procura de alguém, mas que sentem, e os maiores que tanto entendem o porquê de estarem ali quanto sentem duplamente a dor da rejeição pois sabem que ninguém nunca os escolherá por estarem crescidos.

Chorei porque às vezes reclamo da vida sendo que tenho tudo e eles sorriem por receberem o mínimo.

Saí dali com o coração apertado, a dor dentro do peito, mas com o sorriso de cada um na memória.