Antes de ir fotografar em um evento hoje, estava fazendo hora na praça São Sebastião, sentada na fonte, fotografando o palhaço que carregava algodão-doce quando apareceu um homem com um turbante e junto com eles havia dois garotos. O maior tinha cabelos escuros e bem curtos, o outro, que parecia ser mais novo, era mais claro, os cabelos loiros e também possuía um turbante que o escondia quase todo.
O pai e o menor pareciam ser de outro lugar, talvez algum desses países do Oriente ou descendentes de tal. Ele, o pai, tinha a voz grossa e carregava um brinquedo de fazer bolhas de sabão que pertencia a um dos filhos.
Os dois garotos tinham, cada um, um barco inflável. Subiram correndo as escadas da fonte pensando que ali havia água. Não havia. Mas tal detalhe não foi suficiente para impedi-los de brincar. Apenas imaginaram a água e começaram a correr um atrás do outro imitando o som de barcos.
O pai sentou e ficou vigiando a brincadeira dos dois. Percebia-se que o menor era mais agitado que o outro, falava mais alto enquanto o outro sempre mantinha a voz calma. Começou então a querer brincar de um modo mais violento, batendo os barquinhos um no outro. O mais velho não gostou e reclamou para o pai que virou para o outro e pediu que parasse.
Como ele não gostara da repreenda do pai, largou o barco e passou a brincar com o outro brinquedo, o das bolinhas de sabão. Brincou até acabar e reclamou quando acabou. Logo esqueceu e chamou o irmão para voltar a brincar com os barcos, correndo.
Eu fiquei ali apenas olhando aqueles três. Então o pai virou para mim e falou: eles são irmãos, mas de mães diferentes. Acabaram de se conhecer.
Eu apenas balancei a cabeça.
Logo o mais novo se afastou pois o outro começou a reclamar da brincadeira. Como ele estava longe, o pai chegou perto e se abaixando falou: ele é mais novo, você não pode bater nele e ele nunca teve um irmão para brincar com ele.
“Mas ele gosta de brincar muito rápido”, ele reclamava.
“Eu sei mas você pode ensinar a ele a brincar devagar”.
“Mas ele ganha presente também?”, perguntou curioso.
“Ganha”, o pai respondeu.
“Mas ele ganha muito?”
“Não, só quando ele merece”, respondeu o pai.
O filho ainda tentou argumentar mas o pai, sem levantar a voz, apenas disse:
“Vocês são irmãos. Têm que aprender a conviver um com o outro”.
Ele chamou o outro filho para irem embora. Eu aproveitei e guardei a máquina, chamei minha irmã para irmos também. Estava tranqüila porque ele era um bom pai. Qualquer outro teria se exaltado mas ele teve a lucidez de explicar ao filho o certo e o errado. Lembrei que minha mãe nos criou assim, a mim e minha irmã. Somos irmãs, as coisas iriam ser diferentes a partir do momento em que ela nasceu.
E eu sabia disso desde quando soube de sua existência. A gente diverge, a gente bagunça, brinca, conversa ou não conversa, reclama. Mas somos irmãs e seremos sempre, não importa o que aconteça.